Estação Antártica Comandante Ferraz

Concurso Nacional de Projetos

2013 

Autores:

Biselli Katchborian Arquitetos Associados NAVE Arquitetos Asociados

São Paulo Arquitetos

 

Menção Honrosa
 

Caracterizada pelo clima de condições extremas, a região da Baia do Almirantado na Ilha Rei George, onde em 1984 foi implantada a Estação Antártica Comandante Ferraz (EACF), é um desafio para a resolução do partido arquitetônico, no qual alguns fatores são claros e determinantes.

 

O primeiro e mais importante fator é a redução ao mínimo possível do impacto do conjunto arquitetônico sobre o território. Somado a isto existe ainda a questão da definição dos sistemas de geração e alimentação de energia, com ênfase na busca do equilíbrio entre o uso de combustíveis fósseis e o uso de energias renováveis, com o menor impacto possível no meio ambiente. Outro fator condicionante do projeto é atenção às questões de segurança e funcionamento, minimizando os riscos de colapso em caso de acidentes.

O partido adotado surgiu da interpretação das condições sugeridas no termo de referência e da setorização dos espaços distribuídos em blocos pelos setores listados, sendo estes: privativo, social, serviços, operação/manutenção e laboratórios. Considerou-se ainda a questão das limitações de logística para a execução, manutenção e futuras modificações, o que indicou como solução mais eficaz um sistema modulado com perfil constante com capacidade para abrigar todas as configurações espaciais em cada setor e que permite a potencialização do desempenho da construção em termos de conforto térmico e acústico.

Um aspecto importante considerado na distribuição do programa e no arranjo dos blocos foi a relação entre as partes e o todo. A estação pode ser considerada, do ponto de vista da segurança, da parte técnica e operacional, e ainda da proteção climática, como um espaço único, uma vez que a circulação climatizada atinge todos os módulos sem a necessidade de qualquer passagem externa. Ao mesmo tempo, a compartimentação dos blocos trata da hierarquia dos espaços e das condições de cada um interferindo na relação entre os usuários / habitantes.

A posição central do bloco habitacional de convivência caracteriza a sua função de coração da estação, onde ocorre o convívio, onde está o calor do fogo e da comida (refeitório, cozinha, espaços para o lazer). Contíguos a ele estão os blocos de laboratórios e o bloco habitacional dos dormitórios, conferindo a este bloco central um caráter distribuidor do espaço, separando a privacidade e a necessidade de repouso e silêncio dos dormitórios e a concentração e trabalho constante reservada aos pesquisadores no período em que a estação os abriga. O bloco técnico operacional encontra-se um mais pouco mais afastado gerando uma relação de espaço servidor e espaços servidos, também com a preocupação do isolamento acústico e reduzindo as interferências funcionais entre os blocos.

O módulo gerador do projeto tem uma configuração geométrica que conjuga e alia a distribuição do espaço abrigando as funções programáticas sem comprometer suas funções técnicas e de desempenho. A forma adotada evita os ângulos retos e os planos horizontais, fatores que comprometeriam o desempenho térmico e estrutural. O primeiro podendo gerar ponte térmica e consequentemente a perda de calor de dentro para fora da estação, e o segundo, a sobrecarga do sistema estrutural principalmente no período do inverno.

Este módulo parte de uma forma elíptica trapezoidal que busca atenuar as questões aerodinâmicas em função das severas condições do vento de até 178 km/h, e através de sua casca térmica acoplada ao sistema estrutural, configura uma construção hermética, leve e adaptada às condições do sítio. Também em função das condições climáticas, a decisão pela elevação dos blocos construídos, evitando que os módulos toquem o solo, visa a preservação das condições térmicas dentro das edificações, como também evita o isolamento e a dificuldade de acesso durante o inverno, quando o acúmulo de neve chega a 3m de altura.

O conjunto, implantado paralelamente às curvas de nível e à faixa de praia, está divido em quatro blocos distribuídos em dois eixos paralelos. No conjunto de blocos maior, mais próximo ao mar (blocos frontais) estão distribuídos os setores de laboratórios, convivência e serviços, e o setor habitacional privativo. No bloco mais distante da praia estão alocadas as funções técnicas e operacionais da estação. Todos os blocos estão implantados elevados do solo, apoiados na estrutura proposta, com os pisos no mesmo nível. Este arranjo permite que, tanto do ponto de vista funcional quanto da segurança, os fluxos entre os blocos não sejam comprometidos em função de eventuais problemas técnicos e de segurança. A ligação entre os blocos se faz internamente através de passarelas e conexões protegidas e climatizadas evitando assim o percurso externo nas condições climáticas mais severas.

A distribuição do programa entre os blocos ocasionou uma diferença de soluções estruturais que distingue os blocos mais elevados (frontais) do bloco técnico operacional. Enquanto os três blocos frontais têm um sistema estrutural projetado a partir de um sistema espacial com componentes estruturais mais leves, o bloco dos fundos tem uma estrutura mais pesada e prevista para uma carga maior em função dos equipamentos, reservatórios e maquinário que ficarão nele abrigados e que demandam um sistema estrutural que previna não apenas a sobrecarga, mas também fatores como a vibração e o ruído comum a estes equipamentos. Em ambos os conjuntos o sistema estrutural prevê o piso sobre uma bandeja estrutural e na parte do teto central outra bandeja por onde passa o shaft de insatalações.

As opções de estrutura e implantação elegidas para o conjunto edificado se refletem na solução da fundação: enquanto nos blocos da frente, as fundações estão mais espaçadas e distribuídas em dois eixos longitudinais mais distantes, no bloco dos fundos as estacas e pilares estão distribuídos em maior quantidade e mais próximas.

O conjunto dispõe de quatro acessos, sendo um no bloco dos laboratórios, um no bloco habitacional/convívio, e dois no bloco dos fundos. Todos os acessos estão previstos com o sistema de isolamento térmico e a câmara de troca de roupas e secagem. No conjunto frontal, os acessos estão dispostos num piso abaixo do principal, que não toca o solo, envoltos pela casa de isolamento. Os acessos do bloco técnico operacional são previstos também como docas de carga e descarga.

As instalações distribuídas a partir do bloco técnico operacional caminham junto com a circulação em todos os blocos ocupando o espaço e racionalizando a alimentação e a distribuição, bem como a manutenção. Sendo este sistema simples e de fácil operação, na eventual ampliação ou substituição de módulos, o processo pode acontecer sem a interrupção do funcionamento da estação. Um trabalho deste tipo realizado em um bloco específico que pode ser isolado tanto na sua totalidade como parcialmente não compromete a alimentação dos outros blocos.

O aspecto de segurança da estação está previsto pela configuração e distribuição do programa e a setorização adotada. Da mesma forma que os blocos podem ser isolados a partir dos sistemas de alimentação, os mesmos podem ser parcial ou totalmente isolados no caso de sinistro ou dano ao revestimento de proteção. As extremidades dos blocos são configuradas como saídas de emergência com portas com o mesmo isolamento térmico da casca e abertura pelo lado interno.

O sistema construtivo visa à simplicidade e facilidade de operação e manutenção. Os módulos são montados lado a lado construindo assim os blocos. Após a execução das fundações a estrutura metálica modulada é lançada e, conforme a montagem avança no sentido longitudinal, as partes da casca de revestimento/isolamento são montadas conectadas à estrutura. Nestas partes da casca já estarão fixados os caixilhos e as conexões, cabendo à mão de obra do local apenas a montagem dos componentes sem a necessidade de nenhum processo que não seja os de encaixe e aparafusamento. Os banheiros e demais componentes internos serão montados no mesmo sentido longitudinal, sendo que estes trabalham também como componentes que chegarão prontos ao local, devendo apenas ser conectados aos sistemas de estrutura, vedação e instalações. Todos os materiais utilizados estarão de acordo com o que foi disposto no termo de referência e seu desempenho certificado pelas normas e legislação vigente.

A Estação conta com unidades isoladas que serão substituídas preservando-se a localização original de cada uma. São elas: Meteorologia, Ozônio, VLF, Ipanema, Punta Plaza e Refúgios I e II. As características construtivas destas unidades variam em função da atividade desempenhada e o sistema construtivo e a tecnologia adotados são as mesmas do conjunto principal da estação. Existe ainda como um bloco externo a área de Cafangoria, com as atividades referentes aos equipamentos de transporte, servindo de garagem e manutenção, e ainda o módulo de mergulho. Este bloco está implantado no local onde anteriormente ficava o heliponto e que já abrigava esta mesma função pela sua posição estratégica entre a estação e o acesso da praia às embarcações através da balsa.